Um lindo relato de caso por Fançoise Dolto
- Cibele Scarpelin

- 6 de mai. de 2020
- 3 min de leitura

Quero compartilhar aqui no meu blog o comentário de um caso que Françoise Dolto, psicanalista francesa, faz de uma analisante que ela acompanhou até a morte. Essa mulher morreu de câncer, mas desconhecendo portar essa doença, como tinha muitas dores no corpo e tomava medicamentos, pediu que Dolto a acompanhasse para que ela conseguisse continuar a trabalhar.
Eu considero um relato muito bonito e sensível, que é a característica da clínica de Dolto. São leituras como essa que me fazem sentir alegria e ficar espantada com o poder dos afetos e das experiências infantis.
Segue o relato de Dolto em “Seminário de psicanálise de crianças”:

Durante o que foi sua última sessão em meu consultório, ela me disse: “Tive um sonho extraordinário, impossível de contar; mas acompanhado de tal felicidade que não sei se é possível sentir algo comparável na terra. Essa felicidade vinha de sílabas que eu ouvia, sílabas que não querem dizer nada. Não havia nenhuma imagem nesse sonho”. Essas sílabas, ela as pronunciou, e eu as transcrevi. Ela ainda estava iluminada com elas. E o final da sessão girou em torno desse sonho extraordinário e do contraste com seus problemas na vida cotidiana. “É verdade”, disse ela, “que, se fosse duradoura, tal felicidade consolaria de tudo”.
Perguntei-lhe, após a sessão: “E se fossem palavras de alguma língua indiana?”, pois eu sabia, por sua história, que, quando seu pai, de nacionalidade inglesa, estava alocado nas Índias, sua mãe voltara para dar à luz na Inglaterra e, depois, fora ao encontro do marido, com o bebê de um mês. Minha paciente vivera, pois, na Índia desde então até os nove meses. Ali, sua família vivia muito largamente, empregando pessoas para o serviço doméstico. E, como o pai e a mãe iam, às vezes, em representações oficiais, para outras regiões, tinham proposto para uma pequena indiana de quatorze anos cuidar do bebê em sua ausência. Essa jovem não deixava o bebê, que ficava constantemente em seu colo; era realmente sua babá. O bebê crescia muito bem. Minha paciente não guardara nenhuma lembrança dessa primeira infância, mas a conhecia por fotos e pelas narrativas que lhe haviam feito os pais.
Quando o bebê tinha cerca de nove meses, o pai teve que voltar para a Europa. Colocou-se então a questão de saber se levariam a jovem que cuidava do bebê, diante do desespero que ela demonstrava à perspectiva de deixa-lo. Os pais decidiram, finalmente, deixa-la em seu país, não sabendo se conseguiria adaptar-se ao modo de vida inglês, com quinze anos, longe de sua família, que ainda levava uma vida tribal. E foi dilacerante o adeus da pequena indiana ao bebê que a deixava. Também essa cena, minha analisanda só conhecia pelo que lhe haviam contado.
Ela me disse: “Mas como saber se os fonemas ouvidos nesse sonho tem alguma relação com o híndi?” Respondi-lhe: “Indo até a cidade Universitária, na Casa da Índia. Talvez você encontre alguém que possa lhe dizer. O que eu estou dizendo talvez seja absurdo, mas é possível que, em uma regressão muito profunda, como as que se produzem no sono, você tenha reencontrado esses fonemas ouvidos lá longe, na sua primeira infância.”
Ela foi até a Cidade Universitária, e encontrou uma pessoa que lhe declarou: “Olhe, existem setenta línguas em nosso país. Não sei. Pergunte a Fulano.” Depois de ter assim consultado muitos estudantes hindus, acabou encontrando um que lhe disse: “Ah, sim, isso parece com tal língua. Você estava perto de tal cidade quando você era criança? Sim? Então, é em tal região que se fala essa língua. Aquele cara ali vem de lá. Pergunte a ele.”
E o jovem que acabavam de lhe indicar sorriu ouvindo aqueles fonemas pronunciados todos errados. Ele os repete, por sua vez, com a pronúncia correta e declara a minha paciente, rindo: “Claro, claro! É o que todas as babás, todas as mamães, dizem aos bebês: Minha querida pequena, cujos olhos são mais belos que as estrelas. É uma pequena frase de amor.”
Fora então naquele lugar, e naquela idade, que fora gravada, em sua memória, aquela língua completamente esquecida em seguida (...).
(...) De qualquer modo, minha paciente nunca mais em sua vida voltara à Índia, e aqueles fonemas não lhe diziam absolutamente nada quando acordou. No entanto, em seu sono, eram acompanhados desse prazer narcisante indizível que recebe o nome felicidade.



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