Sobre o filme "A livraria"
- Cibele Scarpelin

- 30 de abr. de 2020
- 2 min de leitura
É preciso saber a hora de ir embora, mas escolha uma boa companhia para te acompanhar

Nessa quarentena estou lendo bastante, fazendo os atendimentos online e as vezes assistindo filmes e séries. Ontem tive a alegria de assistir o filme “A livraria” presente no catálogo de filmes da netflix.
O filme conta a história de Florence Green, a protagonista do filme que é viúva e chega na cidade com a ideia de montar uma livraria. O cenário é uma cidade aparentemente tranquila e conservadora no litoral da Inglaterra na década de 50.
Confesso que o filme não estava me tocando no começo. A trama da história vai acontecendo aos poucos e a protagonista é bem silenciosa. Podemos ver ao longo do filme a mandíbula enrijecida da personagem nas conversas com os moradores da pequena cidade. Esses moradores não querem uma livraria no local e começam a criar obstáculos para que Florence não consiga manter seu estabelecimento aberto.
Com o que os moradores se incomodam tanto? Me parece que Florence, apresar de ser muito reservada nos transmite, por traz de toda a simplicidade, uma paixão e a coragem (qualidade citada ao longo de todo o filme) para não abrir mão dessa paixão. E me parece que é isso, além de outras coisas, que os seus vizinhos não perdoam: a coragem de assumir o próprio desejo.
Acho interessante, logo no começo do filme, a conversa entre Florence e o suposto galã da cidade. Ele pergunta a ela: “Sozinha?” com ar de falsa compreensão e acolhimento, querendo saber se ela é casada. Ela diz que é viúva e ele, agora interessado, pergunta: “Pensa em se casar de novo?”, vemos o rosto surpreendido dele com a resposta de Florence: “Não, fui muito feliz em meu casamento”. A cidade não suporta essa feliz simplicidade.
Outro encontro interessante é a de Florence com a criança do filme, Christine. É uma criança muito esperta e desinibida, que diz com franqueza o que pensa aos adultos. Christine começa a trabalhar na livraria e uma bonita amizade se forma entre ela e Florence. Mas, Christine já avisa: Não gosto de ler. Mesmo assim, Christine deixa um livro para ela guardado em uma estante e diz para Christine que é para quando ela quiser ler.
A criança e o misantropo são os únicos amigos que Florence faz na cidade. Sr. Brundich, um senhor que mora em um casarão e quase nunca sai de sua casa, fica na companhia dos livros o dia todo. Florence e o Sr. Brundich tem uma relação de amizade muito bonita durante a história, motivados pela paixão pelos livros.
Nós nos surpreendemos, ao final do filme, quando descobrimos quem é o narrador da história. Mas, para mim, o filme todo se justifica pela última frase: “Ninguém se sente solitário em uma livraria”.
Eu poderia comentar sobre outros pontos que achei emocionante, mas considero que é um belo filme para assistir e se surpreender, não quero adiantar muita coisa. A mensagem que fica é a de que temos que ter coragem de lutar pelo nosso desejo, mas também precisamos de muita coragem para abrir mão do desejo e ir embora. Mas, se precisar enfrentar tudo isso, escolha uma boa companhia. Concordo com o final do filme e para mim ninguém se sente solitário na companhia de um bom livro.



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