Parte VI - A tinta da melancolia
- Cibele Scarpelin

- 13 de out. de 2020
- 2 min de leitura

“Quando a melancolia ataca do lado de fora, minha casa não me protege e a porta se abre. Quando a melancolia se fecha comigo, as paredes se comprimem e as portas são trancadas para sempre” (Starobinski, p. 489).
A última parte do livro “A Tinta da Melancolia” começa com uma citação muito bonita e devastadora, a respeito da sensação do “nada”, do “vazio”, constantemente sentida nessa doença:
“Nos confins do silêncio, no sopro mais fraco, a melancolia murmura: ‘Tudo está vazio! Tudo é vaidade!’. O mundo é inanimado, atacado de morte, aspirado pelo nada. O que foi possuído se perdeu. O que foi esperado não ocorreu. O espaço está despovoado. Por todo lado estende-se o deserto infecundo. E se um espírito paira acima dessa extensão, é o espírito da constatação desolada, a negra nuvem da esterilidade, de onde jamais brotará o raio de um fiat lux. Do que a consciência contivera, o que resta? Apenas algumas sombras. E talvez o vestígio dos limites que faziam da consciência um receptáculo, um continente – como a muralha extinta de uma cidade devastada. Mas para o melancólico a vastidão, nascida da devastação, é por sua vez abolida. E o vazio torna-se mais exíguo que a mais estreita masmorra” (Starobinski, p. 429).
Na melancolia é tema constante o vazio, ela enfrenta o vazio. Para Starobinski o poeta Baudelaire que é, segundo ele, o especialista supremo em melancolia, “convocou em seus poemas todas as rimas francesas convocadas pela palavra vazio”. O sentimento do nada também pode ser um espaço aberto para a imaginação e podemos ver essa ideia claramente em Rousseau, em que esse sentimento do nada traz e eleva a imaginação, criando a obra “A Nova Heloísa”.
Nesse capítulo, Starobinski trata de vários autores da literatura: é comentado sobre o tema da espera a partir do da leitura do livro “Dom Quixote” e sobre a questão do suicídio a partir da obra de Madame de Staël, Starobinski cita a obra de Pierre Jean Jouvre (1887-1976) poeta e romancista francês que expressa poeticamente a experiência melancólica e cita Roger Caillois, sociólogo, crítico literário e ensaísta francês.
A melancolia é sentida como uma presença constante, o medo que ela reapareça e que nunca vá embora é sempre presente. Essa forma de vivência do espírito não tem preferência a um único temperamento, habitando desde filósofos, avaros e eremitas, sem escolha específica. Mas Starobinski aponta algo em comum, uma característica própria da melancolia: a sensação de não pertencer a lugar nenhum.
Mostrando a história dos tratamentos da melancolia, a melancolia na literatura, na poesia, na filosofia e na ciência, ficamos fascinados com a leitura do livro de Starobinski. Para quem tem interesse em entender um pouco mais sobre o que hoje chamamos de depressão, fica aqui a dica da leitura desse livro.



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