Parte V – Livro “A tinta da Melancolia”
- Cibele Scarpelin

- 1 de ago. de 2020
- 3 min de leitura

"Não é meu propósito fazer de Baudelaire, poeta do spleen, um melancólico. Preferiria dizer que ele imita admiravelmente – com o auxílio do que chamava sua “histeria” – as atitudes da melancolia e os seus mecanismos profundos” (Starobinski, p. 374)
Starobinski começa a parte V do livro “A tinta da Melancolia” nos mostrando a relação das poesias de Baudelaire (poeta francês e teórico da arte francesa do século XIX) com o sonho. O poeta transcrevia seus sonhos para transformá-los em poesia, mas ao mesmo tempo que o sonho era fonte de inspiração era também causa de terror, a ponto de não querer dormir. Algumas poesias de Baudelaire trazem o tema de um sofrimento interminável, o tema da imortalidade e da morte. Ele usa o termo spleen para designar esse estado da alma conhecida como melancolia.
“Sua experiência, embora inegavelmente influenciada pela imagem cultural do spleen, é mais direta, mais imediata. E acontece-lhe formular sentimentos que só serão levados em conta “cientificamente” em época mais tardia. Assim, pode-se dizer que a intuição poética de Baudelaire, em vários aspectos, antecipa o que os clínicos aprenderão a reconhecer” (Starobinski, p. 355).
Starobinski comenta sobre o poema “Spleen II”. Esses versos falam de uma acumulação de lembranças. De fato, a melancolia, segundo os médicos, se caracteriza pela prevalência da relação com o passado. Além disso, aparece a sensação de um tempo desacelerado, a angústia, a sensação de erro e a sensação de peso que são constituintes da vivência melancólica.
No capítulo “O olhar das estátuas”, é mencionada a relação da escrita de alguns autores com o tema da estátua, principalmente citando ainda Baudelaire:
“A experiência melancólica é, em primeiro lugar, um condensado de agressão e sofrimento: é ao mesmo tempo, como vimos, uma sensação de perda vital e de petrificação. A estátua e seu olhar estão aptos a figurar sinteticamente todos esses elementos. Baudelaire, em “Spleen”, no final de suas sucessivas atribuições de papéis, figurou a si mesmo como ‘um granito cercado por um vago pavor (...)” (Starobinski, p. 395).
Interessante é a menção, também, da cura da melancolia através de um grande susto. Essa forma de cura aparece também na poesia de Baudelaire através do príncipe e seu bufão: o susto pode ser a cura para a melancolia de um lado, porém pode ser fatal em outros casos em que um susto pode causar a morte.
“A história narrada é ela mesma ilustração de uma opinião recebida: dizem que um grande medo pode curar a melancolia e a febre quartã. A ideia também está em circulação. Citemos uma das fontes antigas. Celso escreve: ‘Também consideramos bom excitar nesses doentes terrores súbitos, ou imprimir por um meio qualquer um abalo profundo à sua inteligência. Essa comoção, de fato, pode ser útil, arrancando-os de sua situação primeira’” (Starobinski, p. 400).
No capítulo “Negadores” e “Perseguidos”, Starobinski nos traz um documento do médico Jules Cotard que em 1882 escreve sobre o delírio das negações, sintoma que alguns melancólicos apresentam como traço característico: a ideia de que nada mais existe, seus pais, seus órgãos, a própria existência. É um documento muito interessante para sabermos sobre os conceitos e tratamento da melancolia naquela época.
Assim, nesse penúltimo capítulo da obra de Starobinski podemos acompanhar a história da melancolia através de relatos médicos, poesias, obras de arte e crenças populares. Muito interessante para entendermos o desenvolvimento do discurso sobre as patologias psíquicas.



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