Parte IV: A salvação pela ironia?
- Cibele Scarpelin

- 2 de jul. de 2020
- 2 min de leitura

Continuo com a leitura do livro "A tinta da Melancolia" de Jean Starobinsk. O convite é que você que acompanha meu blog se interesse a ler esse livro que nos mostra a história cultural da tristeza. Continuo agora com a parte IV do livro.
No século XVIII, a literatura recebe influências de estilo em miniatura, obras curtas, como os contos, por exemplo, e começa-se a recolher e adaptar os antigos contos de fadas, além da criação de outros. Na maioria das vezes, essas histórias terão como objetivo uma paródia ou um sentido satírico. Através do conto, nessa época, pode-se dizer de temas proibidos pois a fantasia torna-se um disfarce: “A substância leve do conto permite mil dardos dirigidos contra personagens ou situações reais. Cabe ao leitor, à leitora, fazer a aplicação desses dardos e divertir-se à custa daqueles que a caricatura terá desfigurado: assim participam da atividade agressiva do satirista” (p. 275).
Nessa parte IV, Starobinski comenta sobre as obras de autores em que é recorrente o tema da melancolia, e de como a ironia está presente nesses textos. O primeiro autor comentado nessa parte é Carlo Gozzi (escritor nascido em Veneza, no ano de 1720, que ganhou reputação como autor de peças satíricas), que lançou uma comédia em 1761 – “O amor das três laranjas” – uma paródia sob a forma de conto de fadas. Nessa obra, o conto de fadas não é mostrado como algo sério, mas antes se torna algo cômico. Gozzi quer conservar a possibilidade de tratar de verdades ocultas e de crítica satírica aos defeitos dos venezianos. A recusa de uma psicologia realista em sua obra é, segundo Gozzi, preguiça e melancolia. “A distância que seu teatro toma em relação à realidade, Gozzi a sentia constantemente em relação à própria vida. Metendo-se em mil casos tão complicados como insignificantes, escolheu ser um ausente, o que volta e meia conseguiu bem demais” (p. 282).
O autor comenta sobre o conto “As mil e uma noites”, em que o conto é usado para impedir a condenação de morte, cada dia fica posto em suspenso, pois a essa condenação, a narração interrompida faz o rei querer saber mais sobre a história e a morte fica sempre para o outro dia: “Ainda que fosse apenas um divertimento alegre, o conto quer ser uma intervenção terapêutica capaz de reanimar (“cativando-a”) a pessoa cujas tristezas, cujo tédio e humor sombrio afastaram da vida. (...) a obra do artista e talvez até mesmo a do filósofo buscaram constantemente pretexto no consolo, no reconforto ou na diversão que podiam dar a criaturas que fizeram secessão no sofrimento ou na solidão melancólica” (p. 284).
Em “A princesa Branbilla”, obra de E.T.A. Hoffman, baseado em “O amor das três laranjas” de Gozzi, também traz como personagem um príncipe melancólico. Starobinski comenta sobre essas obras e suas referências históricas, mostra também como em Hoffman, a melancolia é curada pela ironia. Além disso, Starobinski nos traz uma nota do Diário do filósofo Kierkegaard, em que comenta as reflexões sobre o conto de Hoffman. Para Kierkegaard, a ironia não é a força que vence a melancolia, é somente o outro lado de uma mesma doença.
Starobinski, Jean. "A tinta da Melancolia: uma história cultural da tristeza". 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.



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