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Parte II: A anatomia da Melancolia

  • Foto do escritor: Cibele Scarpelin
    Cibele Scarpelin
  • 26 de abr. de 2020
  • 3 min de leitura


Na segunda parte do livro “A tinta da Melancolia” de Jean Starobinski, o autor começa tratando de uma história famosa do filósofo Demócrito e do médico Hipócrates. Demócrito nasceu em Abdera, na Grécia, por volta de 460 a.C. e era um estudioso da filosofia, matemática, física, anatomia, música, entre outros. Os cidadãos de Abdera enviaram o grande médico Hipócrates para cuidar de Demócrito, pois acreditavam que ele tinha enlouquecido. Hipócrates encontra Demócrito em seu jardim, estudando anatomia. Conta a história que eles conversaram sobre assuntos como física e filosofia, e a conversa com Demócrito convenceu Hipócrates de que seu suposto paciente estava em perfeita saúde mental. Se há loucura, está do lado dos cidadãos de Abdera que estão desviados da razão.


Na descrição da história sobre Demócrito, aparece a melancolia ligada a um afastamento do mundo, uma predisposição à indignação e ao riso. A voz satírica é utilizada pelos melancólicos como uma forma de denunciar as farsas do mundo. O humor negro é usado para condenar uma sociedade da qual não se sente pertencente. É uma forma de exercer a agressividade melancólica, que se dirige ao próprio eu, mas também se vira contra o mundo.


Pegando como inspiração o filósofo Demócrito, Robert Burton escreve seu livro “A anatomia da melancolia” em que resume toda a tradição sobre a melancolia até então. A obra foi publicada em 1621 e foi um sucesso de livraria. A palavra “Anatomia” presente no título de Burton, é utilizada na época no sentido de examinar o assunto parte por parte, mais tarde essa palavra seria substituída por análise. É feita uma análise da melancolia no livro de Burton, e o próprio autor é melancólico. O livro é escrito, então, como uma forma ativa e criativa de lidar com a própria condição: “(...) o livro confrontará uma fatalidade astral e um esforço de libertação; ligará estreitamente um ao outro; até o fim da obra o mal não deixará de exercer sua ameaça. Mas também até o final a esperança da cura e o otimismo do recurso curativo não deixarão de animar o autor” (Starobinski, p. 158).


Nesse livro de Burton, podemos ainda perceber traços importantes da melancolia, como o sentimento de insuficiência, inferioridade e despersonalização. Isso se mostra presente pois o autor nos transmite a própria palavra poucas vezes ao longo de sua obra. O livro está carregado de citações de outros autores, ele nos traz autoridades para falar sobre a melancolia pois, sendo ele mesmo um melancólico, nada pode dizer sem ter apoio de outros autores, é como se a própria palavra não tivesse valor.


Burton também comenta em seu livro sobre um sentimento recorrente para o melancólico: a sensação de que o mundo todo é um teatro. O mundo é falso e enganador.



Starobinski nos traz, também, a história do encontro de dois melancólicos: Van Gogh e o médico Dr. Gachet. Quando Van Gogh sai de uma internação, em que foi hospitalizado por sua própria vontade, encontra o médico Dr. Gachet e passa a se tratar com ele. O mais interessante desse encontro é o pedido do médico que pede que Van Gogh pintasse um retrato dele.


Nesse retrato podemos observar os sinais clássicos da melancolia, a principal delas sendo a cabeça inclinada apoiada na mão em sinal de desânimo e cansaço. Em sua mesa está retratado uma planta medicinal, a digitális, como símbolo da profissão de Dr. Gachet. Também incluídas sob a mesa, dois livros “Manete Solomon” e “Germinie Lacerteux” são duas obras dos irmãos Gongourt, a primeira sobre o mundo dos pintores e a segunda sobre um caso patológico. Essas obras dizem respeito aos interesses do médico ligados à ciência e as belas artes.



São várias as representações da melancolia, uma das mais famosas a gravura de Dürer. Nessas pinturas ou gravuras sempre aparece algo em comum, objetos carregados de simbolismo, tais como partituras de músicas, figuras de geometria, instrumentos científicos, entre outros. Além de lembrar as alegrias temporais e os limites do saber humano, me parece que também são representantes de como o melancólico lida com a sua condição: é menos doloroso suportar a solidão melancólica quando acompanhada de arte e espírito criativo.

 
 
 

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