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A Clínica de Françoise Dolto

  • Foto do escritor: Cibele Scarpelin
    Cibele Scarpelin
  • 2 de mai. de 2022
  • 4 min de leitura

Segue um texto sobre a clínica de Françoise Dolto. Também no Youtube, fiz várias entrevistas e lives sobre a clínica da psicanalista reconhecida por seu trabalho com as crianças:






Através de algumas leituras de entrevistas com Françoise Dolto, posso dizer que ela sempre repete o seu desejo de criança de ser uma médica da educação. Quando olhamos a trajetória dessa psicanalista, percebemos que ela foi realmente por esse caminho. Françoise Marette, como era seu nome de solteira, nasceu em 1908 e faleceu em 1988 e foi uma psicanalista francesa reconhecida principalmente por seu trabalho com as crianças.

Dolto relembra algumas histórias da infância que a marcaram, depois, em sua trajetória como psicanalista. Os pais, Suzanne Demmler e Henri Marette tiveram 7 filhos, 5 meninos e duas meninas, sendo então uma família muito numerosa. Dolto conta uma cena com um irmãozinho que seria a origem de sua vocação como psicanalista: a cozinheira teve uma discussão com a babá em frente ao bebê, que acabou vomitando o mingau que tinha comido. Ninguém fez a associação dessa discussão com o fato de o bebê ter passado mal, então Dolto diz que a partir de eventos como esse se deu conta de que se uma criança vomita pode não ser por doença, mas simplesmente porque não está contente. Desde criança ela era muito observadora, como podemos perceber.

Françoise Dolto conta, em suas entrevistas, que desde criança gostava de estudar e, quando jovem, gostaria de fazer medicina, o que não foi permitido a princípio. Através da história da psicanalista francesa, vamos acompanhando o relato de vários conflitos com a mãe, principalmente por conta dos estudos. Quando o irmão entra para a faculdade de medicina, Dolto recebe a permissão para cursar medicina e estuda na mesma sala que o irmão. O sentimento de culpa muito forte pelo sofrimento da mãe faz com que comece uma análise com o psicanalista Laforgue, que era o mesmo psicanalista do irmão.

Dolto inicia sua análise pessoal em 1934. Depois de pouco tempo, a mãe de Dolto proibiu o marido de continuar a pagar a análise. Nesse momento, Dolto diz para Laforgue que não vai mais poder continuar a análise, mas ela acaba conseguindo um trabalho como enfermeira, vai morar sozinha e Laforgue consegue para ela uma espécie de bolsa de estudos para analisantes que tinham o potencial de se tornar analistas. Dessa experiência de sua análise ela nos conta algumas situações interessantes: Dolto diz que nunca compreendeu a sua análise, comenta que Laforgue a proibiu de ler qualquer coisa de psicanálise enquanto durasse o tratamento e a análise de Dolto durou três anos, o que não era comum na época. Laforgue aceita que Dolto faça uma sessão por semana por conta de sua condição financeira. Outra situação interessante: hoje se discute bastante a questão do setting analítico, mas na época Dolto nos conta que, durante o verão Laforgue atendia seus pacientes em uma vinícola em que passava as férias.

Françoise Dolto se torna, então, pediatra e psicanalista e durante toda sua vida atendeu em hospitais de Paris, lugar onde tinha uma escuta atenta para perceber que nem todas os sintomas somáticos tinham uma causa no corpo. Uma substituição que fez em um hospital psiquiátrico a fez reafirmar uma certeza da infância: a de que é preciso fazer um trabalho de prevenção com as crianças e que os problemas de aprendizagem, de comportamento na escola, ou vários problemas físicos eram causados por conflitos psíquicos. Isso é importante pois, mesmo no meio analítico, muitos psicanalistas acreditavam que não era possível a psicanálise com crianças. Boa parte de seu trabalho ela dedicou para pensar sobre a educação, orientar profissionais que cuidavam de crianças, como professores e assistentes sociais que participavam dos seminários de Dolto para receberem instrução sobre o comportamento das crianças.

Um importante trabalho de transmissão da psicanálise realizado por Dolto foi seu programa nas rádios. Com o nome de “Doutora X” ou “SOS psicanalista” ela respondia as cartas de pais com dificuldades com os filhos, falando sobre o cuidado com as crianças, a sexualidade infantil, comportamento entre os irmãos entre outros assuntos. Ela acreditava que o conhecimento psicanalítico poderia ser utilizado na orientação dos pais e cuidadores das crianças. Esses programas tiveram bastante repercussão e sucesso. Além disso, ela ficou reconhecida por seu trabalho na Maison Verte, que era um lugar para receber bebês, crianças e pais para conviverem entre si e se acostumarem com a presença de outros adultos. Isso facilitava quando as crianças entravam para a creche, se adaptavam muito melhor. As pessoas que trabalhavam ali tinham uma certa formação psicanalítica, mas que o objetivo, segundo Dolto era evitar o não-dito. Esse projeto, depois, foi implementado em vários outros países pelo mundo. Nesse lugar, temos vários relatos de Dolto “conversando” com os bebês. Ela acreditava que a linguagem, ou seja, a verdade deveria ser dita para a criança desde o nascimento e que o bebê tem fome de palavras. Em um vídeo no youtube podemos acompanhar Dolto conversando com a criança e dizendo para a mãe: “você sabia que muitas crianças que vomitam tem a necessidade de falar? Elas acreditam que vomitando estão conversando”.

Temos a possibilidade de entrar em contato com a clínica de Dolto através de vários relatos de atendimento psicanalítico, como o livro “O caso Dominique” e outros casos que ela relata no livro “A imagem inconsciente do corpo”, além de transcrições de seminários, como o famoso livro “O seminário de psicanálise com crianças”. Alguns de seus trabalhos, como por exemplo “Psicanálise e Pediatria” e “Sexualidade feminina” foram utilizados por médicos que tinham o interesse de saber o que se passava com seus pacientes, para além do que era demonstrado no sintoma corporal.

 
 
 

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